O faturamento total do mercado de macarrão no Brasil cresceu 4% em 2009, enquanto que a produção da massa recuou 0,3% segundo dados divulgados pela Associação Brasileira das Indústrias de Massas Alimentícias (Abima). Além do aumento nos preços, em função de reajustes nos valores pagos pela farinha, o presidente da instituição, Cláudio Zanão, destacou que certa mudança no hábito dos consumidores tem contribuído para o aumento do faturamento do setor.
De acordo com Zanão, o avanço é decorrente do crescimento de 8% no consumo das massas instantâneas e frescas, apesar de corresponderem a apenas 6% do macarrão consumido no País.
Já as massa secas, que respondem por 83% do consumo brasileiro de macarrão, reportaram queda de 2% no faturamento de 2009.
Zanão destacou que nos últimos cinco anos o consumo das massas frescas e instantâneas não parou de crescer.
Entrevista concedida à repórter Carina Urbanin.
IN: Como foi o desempenho do setor em 2009? Pode ser classificado como bom apesar da crise?
Cláudio Zanão: Apesar da crise foi muito bom. Nós crescemos 4% no faturamento e praticamente mantivemos o volume. Então, para o setor de alimentos, nós conseguimos um bom desempenho.
IN: Na verdade houve pequena queda de 0,3% na produção, enquanto que o faturamento cresceu 4% no período. Esse movimento é atribuído a que, elevação nos preços?
Zanão: Sem dúvida. O macarrão é feito basicamente de farinha e água. E a farinha vem do trigo que é uma commodity e portanto tem seu preço regulado internacionalmente. Quando há variação do preço do trigo, consequentemente da farinha e depois do macarrão. No custo do macarrão, 60% é farinha de trigo, então há necessidade de reajustes de preços quando a commodity sobe.
IN: Além disso, algumas mudanças no hábito do consumidor também contribuíram não é? Como o aumento do consumo da massa fresca, que tem preço elevado. Mas o consumo dessa massa fresca responde por quanto do consumo total de macarrão?
Zanão: Exatamente, o consumo da massa fresca e o da instantânea têm crescido sem parar. Em 2009, na comparação com 2008, o faturamento para essas massas cresceu 8% e o volume avançou 5%. Então foi isso que me deu uma certa estabilidade para o total da produção (-0,3%, praticamente estável). Porque as massas secas, que são 83% do mercado, perderam 1% no volume. Mas também ganharam 2% no preço.
IN: Há uma razão pontual que impulsionou a alta no consumo das massas frescas e instantâneas em 2009?
Zanão: Acredito que no nosso País, apesar da crise, houve alta do poder aquisitivo, por isso o aumento na venda da massa fresca, com os consumidores experimentando uma massa nova, saindo do macarrão ao sugo, para um raviolli quatro queijos, e etc. Então o consumidor está procurando sair do comum.
IN: E a variação no preço do trigo tem o mesmo impacto sobre o preço de todas essas massas?
Zanão: Correto, o trigo não diferencia muito na composição das massas. Obvio que para instantâneas e frescas essa proporção de 60% na composição do preço cai um pouco. Então quando o trigo sobe, consequentemente nós temos variação no preço do macarrão.
IN: Qual foi a variação do preço do trigo em 2009?
Zanão: Em 2009, ele deve ter variado em média 8% (alta) na comparação com 2008. Em 2007, quando tivemos a crise do trigo, aí sim, ele chegou a subir 11%. Claro que isso é uma variação média, ao longo do ano a commodity tem altas e baixas. E aí a necessidade de aumento ou não no preço da massa.
IN: O faturamento da indústria de macarrão cresceu quanto em 2008?
Zanão: Cresceu 11% em relação a 2007. E agora 4% em relação a 2008. Houve um arrefecimento em 2009, exatamente porque o preço do trigo foi mais constante no ano passado, do que em 2008. Três quartos da safra do trigo é colhida no segundo semestre, mundialmente falando, então sobra apenas um quarto da safra para o primeiro semestre. Este é o momento chamado de entressafra, quando temos apenas um quarto da produção sendo colhido. Este (entressafra) é o período que o preço da commodity costuma ter maior variação, principalmente de alta.
IN: Então no final do ano os preços tendem a cair. Isso aumenta o consumo?
Zanão: Com certeza. O brasileiro, no começo do ano, paga as dívidas. E no segundo semestre ele tem um poder aquisitivo maior. O varejo brasileiro, em geral, é assim. Vai devagar no primeiro semestre e depois aquece no segundo.
IN: O macarrão é, em geral, um produto barato. Por isso, questiono se um pequeno aumento no preço, ou mesmo queda, tem tanto impacto na variação do consumo, ou se essa é uma variável que depende mesmo é do hábito dos consumidores?
Zanão: Nós temos, arredondando um pouco, 1,3 milhão de toneladas por ano de macarrão consumido no País. Isso nos dá o terceiro maior consumo mundial. Perdemos para os Estados Unidos e obviamente para a Itália, em primeiro lugar.
Dividido por 190 milhões de pessoas (população brasileira), nós vamos para um consumo per capita de 6,5 quilos ao ano. Com isso, vamos para a 13ª posição. Isso quer dizer que tem muitos brasileiros que estão abaixo da linha de pobreza, eles não comem. Não são contabilizados, por isso essa queda tão grande no consumo per capita. E tem muitos brasileiros que apesar de estarem acima da linha de pobreza, trabalham para comer. Então, qualquer variação, mesmo que sejam centavos, pode desestabilizar um pouco esse poder de compra de alguns.
IN: O Brasil, terceiro maior produtor mundial de macarrão, exporta esse produto?
Zanão: Ele exporta, mas a quantidade é mínima. De 1,3 milhões de toneladas produzidas anualmente, cerca de 15 mil são exportadas. Isso porque o Brasil consome mais o macarrão soft, aquele macarrão mais mole. E não o tradicional macarrão ao dente. E se exportar principalmente para a Europa, ou Estados Unidos, o grande consumo é do macarrão de grano duro.
IN: Por que a produção do macarrão do tipo grano duro é pequena aqui no Brasil? É necessário outro tipo de farinha?
Zanão: Correto, a farinha usada para esse macarrão não é moída no Brasil. Ou seja, não há moinho de farinha grano duro no País. Nós importamos a farinha do grano duro e produzimos o macarrão de grano duro. Uma referência de preço: O macarrão, em média custa R$ 3 o quilo - o macarrão comum, tipo soft. O macarrão de grano duro produzido no Brasil tem preço médio de R$ 6. E o macarrão de grano duro importado para o Brasil custa em média R$ 9. Então há uma grande diferença para esses tipos de macarrão. É por isso que o nosso consumo fica com o macarrão mais mole. E não há como convencer uma mudança nesse hábito, pois trata-se de questão financeira.
Fonte: Investimentos e Notícias / Online
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